quinta-feira, 17 de junho de 2010



Casa da Palavra
(Augusto Dias)



Nos meus jardins sintáticos,
Atrás de fonemas em flor,
Guardo um verbo jurássico
Que os antigos chamavam amor.
Minha vida,
Elipse proposital.
Minha voz,
Dissipa-se num tempo verbal.
Sou anáfora,
Pleonasmo,
Encontro consonantal,
Metáfora de um espasmo
Surgindo de outras figuras,
Perdido na estrutura
Da teoria gramatical.
Sujeito ora passivo,
Ora inexistente,
Sou feito desse verbo cativo
Pretérito, futuro e presente.
Lingüista de meia pataca,
Detesto polainas babacas.
Sou paradigma de um verbo regular:
Parto, canto
E ainda me encanto
Com vários modos de amar.
Minha história é descritiva
Ou normativa,
Por vezes instintiva
Como gramáticas geral
E comparada.
Não tente ser minha amada
Se só me lê a capa.
Estude-me concentrada
E vai ter o queijo e a faca.
Desista de decorar minha estilística
E, muito menos, minha retórica.
A prática é sempre melhor
Do que a leitura teórica.
Entre nos meus jardins sintáticos,
Sou um ser paradigmático
Que bate,
Que cura,
Que sara.
Meu intelecto é uma fissura
Que adquire formas raras.
Esta é minha casa,
Morada da palavra.
Sou o seu senhor
E faço dela a minha escrava.
Se erro na concordância
Ou em qualquer circunstância
A língua me bate na cara.
Perdoe minha ignorância,
Mas não sou nenhum
Doutor Bechara.
Sei para que estou aqui
E para que nós todos viemos,
Agora a gente já vamos
Pois, conosco, ninguém podemos.

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